segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Se foi...



Quinze dias foram suficientes para que conquistasse a todos, até aqueles que não suportavam seus pêlos.Seus dentes afiados, que ainda rasgavam sua pele e insistiam em tentar a rasgar a nossa, não intimidaram carinhos e brincadeiras. Os olhos azuis que ora olhavam assustados, ora zombateiros, mas sempre curiosos costumavam descobrir o que estavamos fazendo.
Correria pela casa, saltos no ar, tombos bobos e batidas, e sempre uma sombra no pé de quem andava pela casa.
Foram só quinze dias e foi o que bastou para que enchesse a casa de alegria, com seu ronrorar na hora de dormir e resmungos na hora de comer.
Sempre que eu a olhava pensava se o rajado cinza ia ficar muito mais forte quando crescesse, tinha também os quadradinhos na barriga, e o risco que saia do olho e parecia proposital e não só uma marca da natureza.
Mas ela se foi e nunca vou saber como ela ficaria, e é difícil não pensar nos "E se" "Eu devia ter" "Eu podia". Não foram só as marcas nos braços que essa pestinha deixou...

Que Hécate te leve em paz para o outro lado, meu anjinho que quatro patas.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Poesia em tecido

Houve um tempo em que meus olhos brilhavam só de ler uma linha qualquer bem escrita, e um arrepio frio percorria minha pele quando essa linha era minha.
Era um tempo em que escrever era mais que prazer, era necessidade. Minha mente viajava em busca de um novo tema, que nem sempre alcançava. Mas ela não parava até sujar uma folha, mesmo que com palavras desconexas.
Hoje essa necessidade não é tão forte, mas existe. E junto dela uma outra vem se instalando, essa necessidade não deixa minhas mãos ficarem quietas, me joga um peso no peito e um vazio no estomâgo.
Nasci com essa sede de criar, e o que antes era letra, tornou-se linha. Essa linha vem me cobrando atenção, e ela não quer só um rabisco virtual. Ela quer trabalho duro, quer meus dedos concentrados em uma dança de agulhas, acompanhadas do créc-créc da tesoura pelo tecido.
Preciso sentir o cheiro da criação: tecido, papel, linha, cola. Ouvir os dedos roçando em texturas. Encher os olhos de cores e estampas. Preciso criar.

Enquanto não consigo, assisto:
Mundo das Matildes
Malagueta Craft

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Ego

Pegou no colo com cuidado de mãe, ajeitou os braços com delicadeza para deixá-lo mais confortável. Eles tinham-no machucado tanto, feridas abertas sangravam em volta dele.
Uma lágrima escorreu do rosto dela, passou a costa das mãos e secou. Não iria deixar assim!
Ninou aquela criaturinha tão frágil com cantigas decoradas, a letra falava de tudo que os dois, juntos, eram capazes de fazer. Coisas boas, algumas nem tanto, que já tinham feito. Todas as vitórias foram lembradas, uma a uma.
Aos poucos ele foi melhorando, os ferimentos eram profundos, mas ela foi curando um a um. Justificativa atrás de justificativa, ela mostrava os motivos para ele não se entristecer.
Prometeu que iria corrigir tudo aquilo e, que ninguém que o machucasse, ficaria impune.
Iriam mostrar, juntos, que nada do que aqueles estranhos diziam era verdade.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Cicatriz

Os olhos percorreram o espelho enquanto os dedos tateavam a pele e acariciavam as marcas do corpo.
Tinha uma ligação estranha com cada uma daquelas imperfeições. Imaginava sua pele como um quadro branco, sem tinta, cada marca era uma pincelada, um capítulo de sua vida.
Quando tocava uma cicatriz lembrava exatamente de como ela surgiu, podia até sentir a mesma dor: a pele sendo cortada ou esfolada. Não era uma dor ruim, e sim uma sensação de estar viva, de ser única, de ter uma história.
A sua preferida era um corte feito quando era criança. Era tão moleca quanto os irmãos mais velhos e, naquela tarde de primavera, subiu na árvore para comer alguma fruta da época.
Estava a uns 3 metros do chão quando o irmão do meio passou correndo pela porta da cozinha gritando seu nome. Assustou-se e perdeu o equilibrio, escorregou e começou a cair, conseguiu se segurar em um galho na metade do trajeto
Um galho quebrado havia rasgado a pele e uma parte dele continuava fincado em sua carne. Havia sangue, muito sangue.
Ela olho para baixo e seus olhos encontraram os olhos assustados do irmão. Nunca havia visto ele tão nervoso.
Quando desceu da árvore, segundos depois e sem mais estragos, foi que percebeu a gravidade da situação. Não era tanto o machucado, que acabou ficando em segundo plano, mas o nervosismo do irmão.
O garoto estava pálido e tremia muito, seus olhos não saiam do dela, a respiração era pesada e rápida.
Ela percebeu quando os olhos dele correram pro seu tronco e pousavam sobre o corte, foi quando percebeu que um pedaço do graveto ainda estava lá, abaixou-se sem cerimônia e puxou a madeira. A dor foi quase insuportável, não esperava que doesse tanto.
O irmão continuava imóvel e ela percebeu uma lágrima que fazia o olho dele brilhar.
Eles se encaravam por alguns minutos, até que a mãe gritou da cozinha chamando os dois. Quando percebeu o machucado xingou com aquela preocupação típica e tratou do corte.
A garota demorou alguns anos para perceber que o irmão já não a deixava mais subir em árvores, era sempre ele que ia buscar frutas no alto. Ele nunca mais levantou a voz para ela, nem durante discussões, e a protegerá.
Os dedos acaraciavam a cicatriz mais uma vez, a cicatriz que marcava uma nova relação com o irmão.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Só suspeitas...

Duas palavras ecoavam em sua mente há algumas horas, só duas, sem conexões, só substantivos. Na escuridão do quarto tentava definir o quanto aquele amontoado de letras significava, a sensação que elas causavam, que sentimentos evocavam.
No meio dessas tentativas fechava os olhos e procurava o sono. Ele vinha, forte, pesado, ardia seus olhos. Não o suficiente para impedir as tentativas, elas voltavam e o sono se escondia, dando espaço a lágrimas que não queriam cair.
Um nó ia se apertando no peito, mais e mais, havia um amontoado de sentimentos que, juntos, se anulavam e não sentia nada. Vazio.
Queria poder repetir aquelas duas palavras amaldiçoadas para alguém, ouvi-las se esvaindo com o som de sua voz, perceber melhor o poder delas e decidir o quanto elas podiam machucar, descobrir o quanto a primeira anulava a outra, se tinha o direito de chorar. Não podia, falar elas se agarravam em sua garganta e impediam que a fala saísse.
As palavras continuaram ecoando, elas ecoam ainda: "suspeita câncer".

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Dualidade: Luz e Sombra

Luz

Banho de cachoeira, água fria e cristalina, perfume de flores e relva. Visto meu vestido de primavera, cor de algodão. Prendo meus cabelos em trança, enfeitada com flores do campo.
Tenho em mim todos os sorrisos do mundo, a paz me envolve e deixa meu coração leve.
A pena branca empunhada com delicadeza, deslizam contos de amor e saudade.


Sombra

Água quente na tina, perfume de dama da noite. Visto meu manto mais negro, cabelos soltos ao vento. No ar ressoam as doze badalas, no peito ecoa o silêncio. Um sussurro estrondoso recita-me a poesia, é Aquela que muitos temem que me guia.
Empunho a pena negra de corvo, dela escorre sangue e lágrimas, escapam contos de horror e magia.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Lembranças imaginárias

Um emaranhado de imagens vai se formando, quadros surgem e somem em segundos. Alguns quadros se tornam vivos, se movem, alguns tem sons. São vozes que nunca ouvi e músicas que não conheço, frutos de instrumentos antigos. Sorrisos vazios, lágrimas que não caíram, gargalhadas ecoam, feições nada familiares, olhos que atormentam. Alguns zombam, outros confortam, todos parecem terem algo a dizer.
Como veio, vai, se perdem em algum ponto da consciência, não há como reproduzir, não há como lembrar, não há como entender. Minha mente tenta prender alguma, concentrar-se e procurar a resposta, mas há peças demais.
Restam vestígios de histórias que não são minhas, que me pergunto se pertencem a alguém. Histórias que se confundem com meus sonhos e não sei se são imaginação ou... lembranças.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

O encontro

Havia paz naquele sorriso calculado, uma paz incômoda, quase que pertubadora. Não era hora de um sorriso daqueles, se ao menos fosse um sorriso cruel.
Os olhos sorriam junto com os lábios, e brilhavam com tanta vida que era difícil acreditar que encaravam a morte de tão perto.
E a morte chegava cada vez mais perto, seu cheiro impregnava o ar, o vento uivava ao desviar, temente, da foice. Os passos se aproximavam e o sangue escorria sujando o asfalto.
Levou alguns instantes até que a morte chegasse e todo sangue escorresse. Foi quando os olhos brilhantes alcançavam os olhos frios e negros da morte.
O sorriso pacifico foi se transformando em êxtase, agora o prazer podia ser lido na face daquele, que, a pouco, havia tirado a vida de alguém, só pelo prazer de encarar a morte.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O Retorno

Sorriu sorrisos falsos quando o sangue voltou a escorrer manchando a página. As lágrimas voltaram a se esconder de medo da maldição. Abriu os lábios, saiu um suspiro, filho bastardo do grito que se calou. Durante um tempo acreditou veementemente que a morte tinha fugido de sua caneta, aproveitou aquela fase longe do rubro líquido.

Mas tinha voltado.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Reflexos da dualidade

Às vezes ela volta, posso vê-la em reflexos durante o dia, em flashes na minha mente. Vem acompanhada de suas facas manchadas de sangue, os olhos marcados por lágrimas que não cairam.Ela tem aquele riso irônico que posso encontrar em espelhos, e sinto de longe sua alma pesada. Todas as culpas de uma assassina. Em sua pele todas as maldições cravejadas pelos séculos passados.Ao seu lado a garotinha de vestido branco brinca com o vento, sente a brisa e sorri, sorriso de criança. Os lábios se curvam inocentemente, não reconhecem a maldição, a pureza da idade a livra das culpas do passado e futuras.A vida que emana de uma contrasta com a paixão pela morte da outra. Contrastes, limites, instintos. Ser tantas e nenhuma.
Passado?!